Sarajevo, Bósnia e Herzegovina – 100 anos do disparo que mudou a História

Caríssimos amigos, viajantes e seguidores,

Antes de começar a escrever sobre o que me propus neste post, gostaria de agradecer a todos que nos parabenizaram pelo primeiro ano de vida do nosso blog, fato devidamente celebrado com a minha parceira, amiga, colega e cúmplice, Monika. Sei que é clichê dizer isso, mas sem a participação de vocês, através de visitas, comentários e compartilhamentos, nada disso seria possível!

Vamos agora ao tema de hoje: a Sarajevo do assassinato de Franz Ferdinand, há exatos 100 anos.

Antes, uma foto da minha amada Sarajevo.

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Sim, exatamente 100 anos nos separam hoje, 28 de junho de 2014, do dia no qual o herdeiro ao trono do Império Austro-húngaro foi assassinado em Sarajevo, evento que foi o estopim para que a Primeira Guerra Mundial (hoje conhecida assim, já que, à época, não se sabia que uma segunda estava por vir, e por isso era apenas chamada de Grande Guerra) começasse exatamente um mês depois.

Acredito que entender a Primeira Guerra Mundial seja um parto para todos até hoje, não apenas para aqueles que dormiam nas aulas de História do colégio, pois eram muitos países e impérios que não existem mais contra outros países e impérios que igualmente não mais existem.

Para ilustrar bem esse caos, segue uma montagem irônica muito boa sobre como foi o começo desse conflito e sobre toda a confusão.

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Tudo muito confuso. Eu mesmo estou confuso e acredito ser melhor começar falando sobre como estava a Bósnia nesse período pré-guerra.

O Império Turco-Otomano dominava a região que hoje conhecemos por Bósnia e Herzegovina desde 1878, mas o Império Austro-Húngaro também tinha seus interesses preservados naquela região, de acordo com o Tratado de Berlin, de 1878. Tudo se complicou quando os austro-húngaros resolveram, unilateralmente, anexar a região ao seu império, em 6 de outubro de 1908.

A partir daí tudo desandou. Os sérvios, que constituíam um reino àquela época, ficaram irritados, assim como seus aliados do Império Russo. O sonho sérvio, apoiado pelos russos, era o de construir uma nação eslava nos Bálcãs, e os austro-húngaros estavam tornando isso quase impossível, ao anexarem a Bósnia, terra de eslavos.

Para simplificar, foi nessa confusão que surgiu a figura de Gavrilo Princip, um sérvio-bósnio nascido em Obljaj, uma pequena cidade que hoje se situa na Bósnia e Herzegovina, perto da fronteira com a Croácia.

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Nascido no mesmo dia que eu (mas 91 anos antes) e, portanto, muito gente fina, o Gavrilo era um jovem de família camponesa pobre que lutou para estudar nos grandes centros da época. Em 1913 ele foi para Sarajevo, onde seu irmão e mentor queria que ele ingressasse no exército austro-húngaro. Quando lá chegou, seu irmão já havia mudado de ideia e era contra os austro-húngaros.

A partir daí o nosso já querido Gavrilo começou a frequentar círculos culturais sérvios, que se opunham à dominação austro-húngara, e seu nacionalismo só fez crescer. Depois de conhecer revolucionários sérvios, que desejavam uma união entre sérvios, croatas, bósnios e montenegrinos, e depois de muitas viagens entre Sarajevo e Belgrado, ele passou a fazer parte de um grupo chamado “Mão Negra”, subordinado a outro grupo anti-imperialista, a “Jovem Bósnia”.

Esse grupo terrorista passou a ter um objetivo: mostrar aos austro-húngaros que eles estavam abusando e, no verão de 1914, eles tiveram a oportunidade perfeita quando da visita do herdeiro ao trono do Império Austro-Húngaro a Sarajevo. Aí está o grupo, na ocasião de seu julgamento, em 5 de dezembro de 1914. Gavrilo está na primeira fileira, no meio.

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No dia 28 de junho de 1914, o herdeiro do trono austro-húngaro, Franz Ferdinand, decidiu desfilar por Sarajevo com sua esposa, a Duquesa Sophia, para mostrar quem mandava por lá. Eles só não contavam com opositores nacionalistas fortemente armados e com uma desorganização durante sua passagem.

Tudo começou com uma granada lançada por Nedeljko Čabrinović sob o carro do Arquiduque, a qual explodiu apenas quando o quarto carro da comitiva passava. Depois disso, mais quatro membros da organização tentaram assassinar o herdeiro e sua esposa, mas falharam devido à grande presença de pessoas, que já estavam desesperadas com o ocorrido.

O Čabrinović, assim que percebeu que sua tentativa tinha sido em vão, tomou cianeto e se jogou no rio Miljacka, decidido em tirar a própria vida. Todavia, o cianeto estava vencido e a profundidade do rio era de apenas 10cm. Acabou preso, passando mal e, obviamente, molhado.

Tudo mudou a favor do grupo do Gavrilo quando, depois de participar de uma cerimônia na prefeitura, o herdeiro ao trono resolveu ir ao hospital local visitar os feridos pela granada. Por conta de uma confusão no caminho a ser percorrido, o carro teve de parar e dar ré em uma esquina e então problemas mecânicos se verificaram, bem ao lado da Ponte Latina, um dos lugares mais icônicos da capital bósnia.

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Quem estava lá, tomando seu café exatamente naquela esquina, no bar Schiller, e a postos? Exato! Gavrilo Princip, o qual disparou dois tiros, um acertando o pescoço do herdeiro e outro acertando o abdômen de sua esposa. Ambos morreram pouco depois.

No café onde estava Gavrilo hoje funciona o Museu de Sarajevo, onde há uma exibição permanente sobre o assassinato lá ocorrido, com direito a jornais da época e a manequins representando o Arquiduque e sua esposa antes do assassinato. Ademais, há uma placa relembrando a importância do local, bem na esquina.

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Um mês depois, estava declarada a Primeira Guerra Mundial, quando o Império Austro-Húngaro resolveu punir a Sérvia pelo ocorrido.

Gavrilo foi julgado não recebeu a pena capital, por ser menor de 20 anos (faltavam apenas 27 dias para seu aniversário de 20 anos), e morreu em uma prisão em Terezín, aos 28 de abril de 1918. Sobre essa prisão, a Monika já escreveu há algum tempo, confiram.

No seu julgamento, ele disse “Sou um nacionalista Iugoslavo, objetivando a unificação de todos os Iugoslavos, e não me importa a forma do Estado, mas ele deve ser libertado da Áustria”.

Seu túmulo se encontra também em Sarajevo, no cemitério de São Marcos, próximo às instalações do antigo Estádio Olímpico, destruído durante a guerra que durou de 1992 a 1995, entre bósnios e o Exército Federal da Iugoslávia, mas isso deixo para um próximo post.

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Gavrilo Princip não foi o responsável imediato pela guerra; seu ato foi apenas o estopim para um conflito inevitável entre impérios expansionistas e cheios de ódios, revanchismos e receios. A discussão que até hoje perdura é: teria sido ele um herói ou um vilão? Embora tenha minha opinião, cabe a cada um encontrar as razões para acreditar em uma coisa ou outra.

O que mudou de 1913 para 1919? Em princípio, o mapa da Europa.

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Ademais, durante essa guerra os tanques ingleses foram usados pela primeira vez, assim como a artilharia de alta precisão, por conta das trincheiras fortemente defendidas, e os submarinos alemães. O gás foi usado e, por conta de seus efeitos desastrosos, foi posteriormente proibido por convenções internacionais.

O Império Austro-Húngaro se foi, bem como o Turco-Otomano e o Russo, após a revolução bolchevique, ao passo que novos países surgiram, como a Checoslováquia, a Polônia, a Iugoslávia, a Estônia e a Letônia.

O genocídio armênio começou, bem como as divisões no Oriente Médio e o surgimento do sionismo, grandes heranças dessa Guerra que se verificam até hoje.

Já li que, à época, ninguém acreditava que pequenos incidentes, movidos por ideologias politicas, sociais, nacionais e econômicas, pudessem levar à guerra generalizada, como de fato ocorreu.

Muitos, até hoje, não entendem seus motivos. Alguns creem que tudo começou pelo simples fato de os líderes destas nações e impérios acreditarem que a guerra fazia parte da natureza humana. Outros acreditam que a escalada se deu porque ninguém pensava que no território europeu haveria outra grande guerra, maior do que as Napoleônicas.

O fato é que, duas grandes figuras da Segunda Guerra Mundial, Churchill e Hitler, começaram suas atividades nessa Primeira Guerra.

Não é fácil escrever sobre um evento como esse, meus caros, mas tentei.

Aos que estiverem em Sarajevo ou forem para lá em breve, aqui se encontra o calendário de eventos da cidade, em razão dos 100 anos do assassinato do Arquiduque e do início da Primeira Guerra Mundial.

Para dar uma aliviada no peso de toda essa história, vamos de…Franz Ferdinand!!!

Espero que tenham gostado!

Grande abraço!

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6 pensamentos sobre “Sarajevo, Bósnia e Herzegovina – 100 anos do disparo que mudou a História

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