Normandia – O Dia D e As Praias do Desembarque

Omaha - Robert Capa
Foto célebre de Robert Capa
FRANCE. Normandy. June 6th, 1944. US troops assault Omaha Beach during the D-Day landings.

6 de junho de 1944. Dia em que a chamada Operação Overlord foi posta em prática pelos aliados nas praias da Normandia, no norte da França. E lá se vão, exatamente, 70 anos do célebre Dia D.

Os planos para a invasão da França começaram a ser traçados pouco mais de um ano antes, numa reunião entre Winston Churchill e Franklin Roosevelt. A Operação Overlord foi apresentada pelo general inglês Frederick Morgan em agosto de 1943 e previa o desembarque das tropas na Normandia em maio de 1944, mas adiado para o mês seguinte devido a contratempos. Em dezembro de 1943, quando o general americano Dwight Eisenhower foi nomeado comandante supremo da Força Expedicionária Aliada, também ficou definido que o desembarque se daria numa área de 80 quilômetros de extensão, entre a cidade de Cherbourg-Octeville e a foz do Rio Sena, na região da Baixa Normandia.

A área foi dividida em 5 praias:

Utah Beach (entre Pouppeville e La Madeleine)

Omaha Beach (entre Sainte-Honorine-des-Pertes e Vierville-sur-Mer)

Gold Beach (Arromanches-les-Bains)

Juno Beach (de Courseulles-sur-Mer a Saint-Aubin-sur-Mer)

Sword Beach (de Saint-Aubin-sur-Mer a Ouistreham)

Nas duas primeiras, Utah e Omaha, desembarcaram as tropas americanas. As tropas britânicas tomaram Gold e Sword e as canadenses, Juno.

debarquement_normandie_6_juin_1944

A Operação Overlord teve início na noite do dia 5 de junho de 1944, com o bombardeio sobre as praias e a chegada de 24.000 soldados paraquedistas (as áreas são visíveis no mapa acima). E, no dia 6, pela manhã, mais de 1.000 navios de guerra e 4.200 lanchas de desembarque, com mais de 150.000 soldados, chegaram à costa normanda.

A Operação Overlord, que passou para a história como Batalha da Normandia, teve fim com a liberação de Paris, em 25 de agosto de 1944. E nesse período, as baixas foram de 100.000 soldados.

O número elevado de mortes não se deve exatamente a combates pois o exército alemão ofereceu pouca resistência, em parte porque não tinha certeza do local do desembarque, e também porque seu poderio bélico já tinha sido reduzido. A suposta “facilidade” com que as tropas aliadas tomaram o litoral da Normandia é evidenciada na transcrição de conversas entre soldados alemães, no livro Soldados – Sobre lutar, matar e morrer (de Sönke Neitzel e Harald Welzer, lançado no Brasil recentemente pela editora Companhia das Letras). Seguem trechos da conversa entre dois comandantes de infantaria (Arnold Kuhle e Sylvester von Saldern):

“Kuhle: (…) Aquela meia dúzia de baterias de costa da Marinha não aguenta nem uns parcos                              lançamentos de bombas, não precisa nem um cobrir o céu, eles já ficam fora de combate. Com a superioridade de material, eles podem destruir simplesmente tudo! O senhor viu como desembarcaram aqui?

Von Saldern: Vi. Como se não houvesse guerra.”

Um artigo publicado pela Deutche Welle Brasil explica o grande número de mortos (leia o artigo completo AQUI):

“Entretanto a Operação Overlord não correu de acordo com os planos, e o caos resultante custou a vida de milhares de soldados aliados. Muitos se afogaram em seus pesados uniformes, pois as rampas de desembarque das lanchas se abriram antes da hora. Tanques afundaram no mar antes de alcançar o litoral para reforçar as tropas de infantaria.

O avanço americano na “Omaha Beach” ameaçava terminar em fracasso. Muitos dos homens ficaram mareados e, portanto, incapacitados para a luta e indefesos contra o fogo dos nazistas. Nessa fase, a invasão quase fracassou: milhares de soldados tombaram somente nas primeiras horas.”

São raros os roteiros de viagem pela França que incluem a visita às praias do Dia D. Talvez porque despertem mais o interesse de veteranos da guerra (que hoje já são pouquíssimos) e de seus descendentes.

No meu caso, as Praias do Desembarque foram incluídas no roteiro da viagem de 2010 pelo meu irmão e pelo meu cunhado, que tinham assistido à série Band of Brothers (que conta a história da Companhia Easy, da 101ª Divisão “Airborne” do Exército Americano). Aliás, eu também assisti à série (os 10 episódios em apenas 2 dias… já contei aqui no blog que gosto de assuntos ligados a guerras e aí se incluem filmes e séries).

Nossa “base” na Normandia foi a cidade de Caen (capital regional da Baixa Normandia), uma das mais afetadas pela Batalha da Normandia e quase totalmente destruída.

Geralmente, é possível contratar nos hotéis as visitas guiadas pelas praias. E, para quem optar por alugar um carro, um GPS é fundamental (fizemos o roteiro de carro). Para ver o básico, um dia apenas é suficiente.

A primeira praia que visitamos foi a Gold, na cidade de Arromanches.

DSC01699

Foi nessa cidade que os aliados construíram, no dia seguinte ao desembarque, um porto artificial provisório (Mulberry Harbour) para descarregar o material necessário à manutenção das tropas.

Ainda é possível ver vestígios desse porto (fotos abaixo). E quando a maré baixa, chega-se até aos remanescentes.

É também em Arromanches que fica o Musée du Débarquement, inaugurado em 5 de junho de 1954 e primeiro museu construído para celebrar a Batalha da Normandia.

Outras fotos de Gold Beach:

Depois seguimos para Omaha, onde visitamos o Cemitério Militar Americano, em Colleville-sur-Mer. E o Visitor Center, que antecede a entrada ao cemitério, conta com um acervo descritivo do desembarque, com testemunhos pessoais dos próprios soldados em textos, fotos, filmes e objetos da época.

O Museu de Omaha fica em Saint-Laurent-sur-Mer. O site do museu tem mais informações sobre outros pontos de interesse em Omaha Beach.

Em seguida, conhecemos a praia de Utah, na cidade de Sainte Marie du Mont, que tem vários monumentos e também conta com seu Museu do Desembarque.

Almoçamos no restaurante Le Roosevelt, que fica na praia de Utah e é decorado de modo a lembrar o desembarque. Ao lado fica o Internet Cafe, com alguns documentos e objetos de época expostos e também um bunker simulado.

Finalmente, seguimos para a Juno Beach (em Courseulles-sur-Mer), a praia onde desembarcaram os canadenses.

Nessa praia fica o Juno Beach Centre , que também conta a história do desembarque do ponto de vista dos canadenses. Na área externa do Centro, há um monumento à memória dos soldados canadenses, com seus nomes afixados em colunas (última foto acima).

Faltou-nos apenas conhecer a Sword Beach. Mas, para quem se interessar, em Ouistreham também há um museu dedicado ao desembarque local, o Le Grand Bunker, le Musée du Mur de l’Atlantique, que pode ser visitado virtualmente aqui: http://www.francevirtuelle.fr/projetvisite/legrandbunker/legrandbunker.html

Para encerrar: já se perguntou o porquê de dizermos “Dia D” e “Hora H” para momentos decisivos? AQUI um artigo – em inglês – com a explicação.

Até a próxima, viajantes! (Ah! Já me esquecia… Quando visitar a Normandia, não deixe de provar o queijo Camembert de Normandie, e o destilado de maçã chamado Calvados, produtos típicos da região.)

Um pouco mais sobre os 70 anos do Dia D (em francês):  La bataille de Normandie en neuf points

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15 pensamentos sobre “Normandia – O Dia D e As Praias do Desembarque

  1. Estou planejando ir em julho para a França e quero ficar cerca de uma semana na Normandia e Mt. St. Michel e outra semana em Paris. Pensei em conhecer Giverny, Rouen, Etreat, Hounfler, Caen e Mt. St. Michel, além das praias do Dia D. Alguma sugestão de como distribuir minha viagem na Normandia? Em que cidades devo pernoitar para conhecer melhor as praias do Dia D (penso em reservar dois dias para lá) e a região? Falo inglês muito bem, mas nada de francês. É difícil dirigir pela Normandia sem falar francês? Obrigada

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    • Olá Marcia,
      gostei bastante do seu roteiro, que não está difícil de organizar. Eu dividiria a hospedagem entre Rouen e Caen. Acredito que 3 noites em Rouen vão permitir que você conheça a cidade e dela possa ir até Etretat, Honfleur e Giverny (a distância de Rouen a Giverny é a mesma que Paris-Giverny; então, depende do seu roteiro de Paris incluir ou não a ida a partir de Rouen). As outras 4 noites em Caen vão permitir as idas e voltas em dois dias pelas praias do Dia D (dá para aproveitar bem os museus em dois dias de visita) e mais um dia no Mont Saint Michel. No quarto dia, explore a própria Caen, que é uma cidade bastante importante no contexto da Segunda Guerra e também por abrigar o castelo fundado por Guilherme, o Conquistador, no ano de 1060.
      Dirigir pela Normandia é bem tranquilo se você tiver um GPS. Nos lugares turísticos você não terá problemas porque os franceses falam inglês (apesar de não serem tão simpáticos ao idioma) mas, se eventualmente precisar parar em alguma cidade pequena e não turística, a boa e velha mímica sempre resolve.
      Mas eu recomento que você aprenda ao menos algumas frases básicas em francês… chegar a algum lugar e dizer um “bonjour” abre portas na França. Quando os franceses percebem que você não fala o idioma, mas ao menos arriscou umas palavrinhas, eles tomam a iniciativa de falar inglês. Foi assim minha experiência por lá quando eu estava no início dos meus estudos do idioma e é isso que digo aos meus alunos que vão à França (eles sempre me confirmam que a estratégia dá certo).
      Se você for de São Paulo, posso indicar o curso de francês para viagem da Aliança Francesa (tem nas unidades de São Paulo e também na de Santo André, onde sou professora). Ajuda bastante e com certeza muda a experiência de quem visita o país.
      Fique à vontade para fazer outras perguntas, se precisar.
      Agradeço muito pela visita ao blog e depois espero seus comentários sobre sua viagem!
      Abraço!
      Monika

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      • Monika, muito obrigada por sua resposta. Desconhecia que a Aliança tinha cursos especiais, para viagem – estou em busca de um curso desse tipo desde o início do ano, mas quero fazer em um lugar confiável, e não tinha encontrado ainda. Nem pensei em perguntar lá, onde me informei sobre os cursos regulares – mas nunca consigo conciliar meus horários com o horário das aulas (moro em São Paulo, na zona oeste, e tem uma unidade perto de casa). E concordo com você, se mostramos respeito pelo idioma francês, somos muito bem tratados por lá. Estive em Paris há sete anos, e apesar de quase não falar nada em francês, sempre começava minhas conversas com as frases “je suis désolée je ne parle pas français parlez vous anglais?” e tirando uma vez em uma farmácia em que uma atendente disse, com mal humor, “c’est terrible”, sempre fui muito bem tratada. Vou começar a montar um roteiro e se tiver mais dúvidas volto a entrar em contato. Até lá, “Bonne Année”

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      • Marcia, espero que você consiga encontrar um horário para fazer o curso. Não sei a carga horária das unidades de SP, mas na de Santo André, tem duas opções: 6 ou 12 horas.
        E, mais do que a expectativa de ser bem recebido como turista, acho que precisamos sempre estar abertos a viver um pouco a cultura do local…e a língua é uma boa parte disso. O bom do francês é ser um idioma latino, relativamente fácil pra nós que falamos português.
        Je te souhaite une bonne année aussi, pleine de bonheur…et de voyages! 🙂

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    • Olá Cassiana!
      Você pode viajar com muita facilidade de trem pela França toda. (acesse o site da SNCF para verificar trajetos, horários e tarifas: http://en.voyages-sncf.com/en/)
      A Normandia, região composta pela Alta e pela Baixa Normandia é relativamente grande. Se sua intenção é conhecer as praias do desembarque do dia D, eu sugiro que se hospede em Caen. Você pode verificar junto a hotéis e operadoras de turismo quais as opções de visitas guiadas para as praias e museus do desembarque. Ou optar por alugar um carro (com GPS) e fazer seu próprio roteiro, como eu fiz.
      A região tem outras cidades bem interessantes como Etretat (para ver as falésias), Rouen, Honfleur… E o Mont Saint-Michel, na divisa entre as regiões da Normandia e da Bretagne é imperdível.
      Espero ter ajudado.
      Obrigada pela visita ao blog.
      Abraços,
      Monika

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      • Obrigada pela resposta, mas acho que não fiz a pergunta certa daqui do Brasil tenho que descer em Paris ou tem alguma cidade mais próxima da Normandia? E de lá gostaria de ir pra Inglaterra vc sabe me dizer se dali dá pra atrvessar o canal da mancha? Obrigada desde já.

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      • Cassiana, creio que o mais fácil seja chegar por Paris e de lá pegar um trem para a cidade da Normandia que você escolher de base.
        A travessia do Canal da Mancha é feita a partir da cidade de Calais (tem-se falado bastante dessa cidade pois próximo à entrada do túnel há um acampamento de refugiados). Certamente você consegue fazer os trechos necessários desde a Normandia de trem. Tente simular no site da SNCF que está na minha outra resposta. Se tiver alguma dificuldade, entre em contato e te ajudo com a simulação. Talvez valha a pena verificar também se há algum voo low cost, que pode ser mais econômico do que o trem.
        Abraços,
        Monika

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