Berlim e o Muro

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Trecho da East Side Gallery

Se você se lembra das siglas RFA e RDA, que a seleção vice-campeã da Copa do Mundo de 1986 foi a Alemanha Ocidental e que ainda em 1988, nos Jogos Olímpicos de Seul, havia duas Alemanhas (e os atletas da Oriental superavam os da Ocidental), bem vindo à Guerra Fria (e ao grupo dos que já passaram dos 30) !

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, (muito basicamente) o mundo ficou dividido entre capitalistas, liderados pelos EUA, e socialistas/comunistas, liderados pela União Soviética. Falava-se em Primeiro Mundo (os capitalistas) e Segundo Mundo (os socialistas). E a Alemanha, derrotada e esfacelada, teve seu território e também a capital Berlim divididos em quatro zonas de ocupação dominadas pelo Reino Unido, França, EUA e URSS.

divisão setorial alemanha

Em maio de 1949, com a promulgação da Lei Fundamental pelos Aliados, surgiu a República Federal da Alemanha (RFA), com capital em Bonn. E em outubro do mesmo ano, a União Soviética funda a República Democrática Alemã (RDA), fixando a capital em Berlim Oriental.

E essa foi a Alemanha que, quando criança, conheci nos mapas:

DIVISÃO ALEMÃ

O muro começou a ser construído pela RDA na madrugada do dia 13 de agosto de 1961. Berlim Ocidental, encravada na RDA, ficaria isolada por quase 155km de muro de concreto, grades metálicas e redes eletrificadas, pistas para patrulhamento militar. E a ordem era atirar para matar quem tentasse escapar.

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Ao longo do muro foram também construídos alguns postos militares de passagem, conhecidos como “checkpoints” (o mais famoso é o Checkpoint Charlie).

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Berlim dividida e os “checkpoints”

Ao longo dos anos, muitos alemães orientais tentaram ultrapassar o muro e mais de uma centena deles morreu nessas tentativas. Mas, com as pressões populares crescendo, em maio de 1989, a Hungria começou a remover as cercas na fronteira com a Áustria, gerando uma fuga em massa de alemães orientais para a parte ocidental. Nessa época, a URSS (que já começava a entrar em colapso) era governada por Mikhail Gorbachev que, durante as comemorações dos 40 anos de fundação da RDA, defendeu reformas para a Alemanha Oriental.

Apenas na primeira semana de novembro de 89, aproximadamente 45.000 pessoas haviam fugido para a Alemanha Ocidental. Sem muita saída, o governo da RDA aprovou uma nova regulamentação para viagens de alemães orientais ao exterior. E durante a coletiva para anúncio das novas regras, um jornalista italiano (Riccardo Ehrman) perguntou ao porta-voz da RDA (Günter Shabowski) em que momento a nova lei passaria a vigorar. O porta-voz respondeu: “Pelo que sei, ela entra já, imediatamente.”

A coletiva era transmitida ao vivo… e logo em seguida muitos cidadãos orientais se dirigiram às fronteiras entre as duas Berlim. Sem muitas informações, os guardas conseguiram conter as pessoas por algumas horas e finalmente o governo da RDA decidiu pela abertura das passagens. Assim, o muro que separou famílias, “caiu” na noite de 9 de novembro de 1989. E as Alemanhas foram oficialmente reunificadas em 3 de outubro de 1990, data prevista no Tratado de Reunificação assinado em 31 de agosto de 1990.

Grenzöffnung - Jubel auf der Mauer am Brandenburger Tor A queda do muro em 1989 (Fonte desconhecida)

Acho que muito por conta dessa imagem acima (lembro-me das transmissões ao vivo), um dos lugares que eu mais queria ver em Berlim quando cheguei à cidade em outubro de 2011 era o Portão de Brandemburgo.

IMG_1936 Agosto de 2013, mesmo ponto de vista da foto anterior.

Berlim preservou alguns trechos do muro e NESTE LINK tem um vídeo curto que mostra alguns dos lugares interessantes para visitar.

Por toda a cidade é possível identificar por onde passava o muro (clique nas fotos):

Observar a trajetória do muro também dá ideia do quanto a cidade mudou desde 1989. Muitos prédios hoje estão construídos exatamente onde antes estava o muro.

Onde encontrar trechos do muro

Potsdamer Platz

Após a construção do muro, a Potsdamer Platz ficou abandonada.

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Potsdamer Platz em 1965. Fonte: dieter-alfer.de

Imagens originais do muro na Potsdamer Platz podem ser vistas no filme Asas do Desejo, de 1987 (a partir de 2’01):

Hoje, a praça é um dos grandes centros de Berlim (abriga diversos edifícios comerciais e o Sony Center, famoso pela sua cobertura com iluminação colorida).

Clique nas fotos.

Checkpoint Charlie e Mauermuseum
Friedrichstraße 43-45

A história do muro e das tentativas de fuga dos alemães orientais para a Alemanha Ocidental é contada pelo acervo do “Museu do Muro” (Mauermuseum), bem ao lado do Checkpoint Charlie. Não era permitido fotografar o acervo, mas lembro que algumas tentativas de fuga estão representadas por uma Romiseta (a pessoa escondeu-se no assoalho do carrinho), um Fusca (usava-se o porta-malas como esconderijo) e até uma prancha de surf (!!!), cujo interior foi removido, de forma a abrigar uma pessoa…se hoje já deve ser muito estranho circular por Berlim com uma prancha de surf no bagageiro do carro, imagine tentar atravessar a fronteira entre as cidades!

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E no posto de passagem, é possível comprar um souvenir para seu passaporte: os carimbos utilizados no controle da fronteira. As autoridades de imigração reais não são muito simpáticas a esses carimbinhos (um agente em Portugal disse para meu irmão que os carimbos invalidariam o passaporte e que ele deveria retirar as folhas carimbadas… “hã???”), mas eu me certifiquei na Polícia Federal e não há qualquer problema (ao menos para as autoridades brasileiras).

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Topographie des Terrors
Niederkirchnerstraße 8

Esse era um dos lugares mais temidos em Berlim. Aí funcionava o Serviço Secreto do Terceiro Reich e também o quartel general da Schutzstaffel (a famosa e terrível SS).

Após o fim da Segunda Guerra, os prédios foram demolidos, mas as ruínas dos porões, onde ficavam as celas de tortura, foram abertas ao público em 1987, juntamente com uma exposição sobre o período nazista.

Atualmente, o local funciona como centro de documentação, com exibições permanentes. A entrada é gratuita. (clique nas fotos)

East Side Gallery
Mühlenstraße (entre a Ostbahnhof e a ponte Oberbaumbrücke)

É a maior extensão de muro mantido em pé. São 1316 metros de muro transformados em galeria de arte a céu aberto. No site oficial (é só clicar no link acima), podem ser vistos os nomes dos artistas que participam do projeto desde a fundação, em 1990 e suas obras originais.

Passei por lá em 2011 e 2013 e notei que outras pinturas surgiram, algumas foram refeitas… e os turistas adoram deixar marcas de suas passagens, escrevendo sobre as obras.

(Clique nas fotos.)

Esses foram os trechos do Muro que pude ver nas duas vezes em que estive em Berlim. Há ainda outros lugares também relacionados ao muro, como o Mauerpark e o Memorial do Muro (Informações AQUI e AQUI, obtidas no blog Simplesmente Berlim), que eu pretendo conhecer numa próxima visita.

Para quem visita Berlim, passar pelos lugares onde existia o muro, além de turismo, é viver (ou reviver) a história e lembrar que tais fatos não podem mais se repetir.

E, para encerrar este longo artigo, deixo como sugestão o filme Adeus Lenin, que conta a história de uma família residente na Alemanha Oriental, marcada pela queda do muro e pela reunificação alemã.

Até a próxima, viajantes! E não esqueçam de contar nos comentários se já conhecem esses lugares. Dividam suas experiências!

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3 pensamentos sobre “Berlim e o Muro

  1. Pingback: DDR Museum: O museu mais legal de Berlim | Viaje por Dois

  2. Engraçado. Ao ler o post tive a sensação de haver visitado estes mesmos lugares na mesma época!

    Berlim é “a” cidade.

    Ó dúvida cruel. Ao me deparar com a trajetória do muro, como saberei qual a parte oriental e ocidental? (Eu sei, mas adiciona aí…)

    Sobre o passaporte: O agente de imigração tuga apenas “se esqueceu” que as folhas são numeradas e caso sejam destacadas, o documento perde a validade. “Mui” inteligente!!!

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    • A resposta para a dúvida: ou se estuda o mapa para saber qual bairro fica em cada lado, ou se assiste o vídeo da matéria da DW…rsrsrs

      E logo seu passaporte todo se tornará souvenir…não terá mais problemas…

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