O Chile de Pablo Neruda

Pablo Neruda, nascido Ricardo Eliezer Neftalí Reyes Basoalto em 12.07.1904 na cidade chilena de Parral, adotou o pseudônimo (que depois se tornou legalmente seu nome civil) porque o som de “Pablo” lhe agradava e “Neruda”, como referência ao poeta tcheco Jan Nepomuk Neruda.

Neruda dispensa outras apresentações. Mas, mesmo quem não conhece a obra do poeta, senador e diplomata chileno, ganhador do Nobel de Literatura em 1971, já deve ter visto circulando na internet os versos “morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música…”, a ele atribuídos. Pois bem! Quem não lê, também fica sem saber que os versos não são de autoria de Neruda, mas da escritora brasileira Martha Medeiros. Todavia, esse engano acaba fazendo com que muita gente descubra Pablo Neruda, ainda que seja por meio de uma viagem ao Chile. E é quase impossível ir ao Chile e não visitar ao menos uma das casas onde o poeta viveu. Visitá-las é conhecer um pouco da história do poeta, do Chile e da sociedade chilena do século vinte.

Eu estive no Chile em 2006 e 2012 e pude conhecer as três casas de Neruda, localizadas em Santiago, Valparaíso e Isla Negra.

La Chascona

A primeira casa que visitei foi a de Santiago, chamada La Chascona em homenagem a Matilde Urrutia, terceira esposa de Neruda, a quem ele deu esse apelido devido a seus revoltos cabelos ruivos. Neruda começou a construir essa casa em 1953, quando Matilde ainda era sua amante.

A construção remete ao interior de uma embarcação e inicialmente contava apenas com uma sala de estar e um quarto. Neruda era apaixonado pelo mar. Uma das alas da casa lembra um farol:

Somente em 1955, quando Neruda se mudou para La Chascona após se separar de sua segunda esposa, foram construídas uma cozinha e uma sala de jantar. Mais tarde, em 1958, foram construídos o bar e a biblioteca, destacados da construção original.

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(O bar e os “ojos”, para que o visitante tome cuidado e não bata a cabeça no galho da árvore.)

Vários dos móveis foram retirados de antigos navios e a casa é decorada com uma infinidade de objetos e souvenirs de viagens que Neruda colecionava.

Após a morte de Neruda, a casa foi saqueada e o pequeno canal de irrigação que passava por ela foi obstruído, provocando a inundação da casa. Ainda assim, Matilde insistiu que seu velório se realizasse ali. Matilde reparou os danos causados à casa e viveu em La Chascona até sua morte, em 1985.

A casa, transformada em museu, fica ao pé do Cerro San Cristobal, no bairro Bellavista (o colorido bairro boêmio de Santiago, cheio de bares e restaurantes).

Localização: Rua Fernando Márques de la Plata, 0192
Horários:
de março a dezembro: Terça a domingo, das 10:00 às 18:00
janeiro e fevereiro: Terça a domingo, das 10:00 às 19:00

  

Todas as visitas são guiadas por funcionários do museu e nas duas vezes que visitei La Chascona, pude aprender com os guias, sempre muito simpáticos, um pouco sobre a história de Neruda e do Chile. Não é necessário reservar ingressos ou comprar com antecedência. Basta chegar, comprar o ingresso e aguardar o horário do seu grupo. Enquanto aguarda, aproveite pra tomar um café no jardim na casa.

La Sebastiana

La Sebastiana, que visitei em segundo lugar, localizada em Valparaiso (a 130km de Santiago), foi adquirida por Pablo Neruda em 1959, em sociedade com a escultora Marie Martner e seu marido.

A casa havia pertencido ao espanhol Sebastian Collao (daí Neruda tê-la batizado com o nome La Sebastiana) e, devido à sua morte em 1949, foi abandonada semiconstruída. Neruda levou três anos para finalizá-la e a inaugurou com uma grande festa em 18 de setembro de 1961. Para a inauguração, Neruda escreveu o poema La Sebastiana (leia o poema aqui).

 entrada da casa La Sebastiana

Após o golpe militar de 1973, La Sebastiana também foi pilhada e danificada. Foi restaurada em 1991 e transformada em museu no mesmo ano. É decorada com inúmeras coleções de mapas antigos, pinturas e objetos como caixinhas de música.

La Sebastiana proporciona ótima vista da baía de Valparaíso e sua arquitetura é extremamente diferente das construções típicas da cidade.

  

E no jardim tem até espaço para um papo com o poeta:

Localização: Rua Ferrari, 692
Horários:
de março a dezembro: Terça a domingo, das 10:10 às 18:00
janeiro e fevereiro: Terça a domingo, das 10:30 às 18:50

A visita é feita com áudio-guia e também não há necessidade de reservar ingressos.

Isla Negra

A casa de Isla Negra fica a 118km de Santiago, na cidade de El Quisco. É a casa que mais gosto e a que visitei uma única vez, em 2006. Minha irmã e eu chegamos lá muito cedo, horas antes da abertura da casa. Então aproveitamos para passear pela praia.

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De acordo com informações oficiais da Fudación Pablo Neruda, ele teria dado o nome de Isla Negra a essa casa provavelmente porque poderia se isolar para escrever e devido à coloração das rochas à beira-mar. Ele adquiriu o terreno em 1938 e a partir de uma pequena casa de pedra que ali existia, foi construindo a casa, que só ficou pronta em 1945.

Quase tudo na casa remete ao mar e é nela que se encontra a maior parte das coleções de Neruda. Há uma sala repleta de carrancas de proas, medusas e outros milhares de objetos distribuídos pelos cômodos. Na verdade, como contou a guia que nos acompanhou na visita, Neruda não se considerava um colecionador, mas um “coisista”, porque acumulava coisas.

A área externa da casa é bastante grande e decorada com uma âncora, um campanário (quando Neruda via um navio ou barco passar, corria para tocar os sinos) e até um barco que servia de bar.

    

E há também a escultura do peixe, que é símbolo do poeta:

  
(símbolo em Isla Negra e num mirante em Concón (próximo a Viña del Mar)

Neruda passou seus últimos dias nessa casa, quando muito adoecido, foi levado a Santiago, onde morreu. Era seu desejo ser enterrado em Isla Negra, como expresso no poema Disposiciones: “Compañeros, enterradme en Isla Negra, frente al mar que conozco, a cada área rugosa de piedras y de olas que mis ojos perdidos no volverán a ver.” Mas somente em dezembro de 1992, dois anos após o fim da ditadura chilena seus restos mortais, juntamente com os de Matilde Urrutia, foram transferidos para Isla Negra e enterrados num túmulo em forma de proa.

  

Localização: Rua Poeta Neruda, s/n, Isla Negra, El Quisco
Horários:
de março a dezembro: Terça a domingo, das 10:00 às 18:00
janeiro e fevereiro: Terça a domingo, das 10:00 às 20:00

Quando fiz a visita, um guia acompanhava os grupos. Hoje, de acordo com informações do site da Fundação Pablo Neruda, utiliza-se áudio-guias.

O valor do ingresso para cada casa-museu é de 4.000 pesos chilenos.

Ao fim da visita, minha irmã e eu pudemos experimentar a hospitalidade chilena: voltamos ao carro e nada do “toyotinha yaris” ligar… a bateria descarregou. Por sorte, surgiu um homem numa caminhonete que nos ajudou e pudemos retonar a Santiago a tempo de irmos à Concha y Toro.

 Porcaria de carro!

Para finalizar, algumas curiosidades sobre Pablo Neruda:

  • Neruda só escrevia em tinta azul ou verde, por serem as cores do mar.

  • Neruda  era apaixonado por navegação e coisas do mar, mas nunca navegou.

  • O filme O Carteiro e o Poeta (Il Postino), baseado no livro El Cartero de Neruda, de Antonio Skármeta, relata uma história fictícia. Neruda nunca se exilou na Itália.

  • Neruda escreveu apenas uma obra em prosa: Confieso que he vivido (publicada no Brasil com o título Confesso que Vivi – Memórias)

  • 2013 marcou os 40 anos da morte de Neruda, ocorrida em 23.09.1973, apenas 12 dias após o golpe militar que derrubou o presidente Allende.

  • Manuel Araya, ex-motorista e amigo de Neruda, cogitou que ele teria morrido em decorrência de envenenamento praticado pela ditadura de Pinochet. O corpo do poeta foi exumado recentemente e os peritos confirmaram que sua morte foi resultado de um câncer de próstata.

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p>Informações mais detalhadas sobre as casas-museu de Neruda podem ser obtidas no site da Fundación Pablo Neruda

E quero deixar aqui registrados meus agradecimentos a duas grandes viajantes:  minha irmã, Bianca, pela companhia nas visitas em 2006 e minha amiga Lilia Pilotti, pela companhia nas visitas em 2012!

Até breve, viajantes!

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