Romênia – Bucareste – A Revolução que Derrubou Ceaușescu

Bună seara, caros viajantes!

Estou de volta ao blog para continuar a narrar minhas experiências na capital romena, Bucareste, no meu mochilão no outono de 2011.

Para os que começam a me acompanhar a partir de agora, este é o terceiro post sobre minha visita à surpreendente e histórica cidade. No primeiro post, escrevi sobre os motivos que me levaram a visitar Bucareste, bem como minhas primeiras impressões sobre a cidade. Já no segundo, escrevi sobre a ditadura dos Ceaușescu e da arquitetura esquizofrênica que ele deixou para a cidade como “legado” dos seus 24 anos à frente do Governo.

Chegamos agora a um momento crucial da História romena: a revolução que derrubou Ceaușescu. Ocorrida em 1989, ela não se iniciou exatamente em Bucareste (houve protestos e manifestações em Brașov e Timişoara semanas antes), mas seu ápice e seus momentos mais decisivos se verificaram na capital, nos dias 21 e 22 de dezembro do mesmo ano.

Acredito que muitos dos que visitam Bucareste simplesmente passem reto (ou pior, passem debaixo, usando o metrô) pela aparentemente pouco interessante Piaţa Universităţii. Ela até conta com um monumento estranho que talvez faça com que as pessoas parem por uns instantes para tentar entendê-lo.

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A praça, todavia, tem um simbolismo muito importante. Foram justamente os universitários que iniciaram os protestos contra os Ceaușescu na capital e lá também foi morta a primeira das mais de 160 vítimas da repressão das forças da ditadura na cidade, às 17h30 do dia 21 de dezembro, o jovem Mihai Gîtlan. Placas e uma cruz negra marcam o lugar exato de sua morte.

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Horas antes da morte de Mihai Gîtlan, o ditador discursava para uma multidão aparentemente simpática às sua ideologia, do balcão do Prédio Central do Comitê do Partido Comunista, na praça hoje conhecida como Piaţa Revoluţiei. Todavia, tudo começou a mudar exatamente durante seu discurso. Do nada se ouviram gritos de ordem contra o seu regime. O líder, até então incontestável, sentiu-se acuado, perdido e confuso, como se pode ver no seguinte vídeo:

As forças governamentais conseguiram, de alguma forma, com que o ditador continuasse seu discurso, agora ao lado de sua detestável esposa, Elena, mas as manifestações vararam a noite, especialmente na Piaţa Universităţii.

No dia seguinte, os revoltosos, agora apoiados pelo Exército romeno, conseguiram invadir o prédio de onde o ditador havia feito seu discurso. Temendo por suas vidas, Ceaușescu e sua esposa foram ao telhado do prédio e de lá fugiram de helicóptero. Pouco depois, os revolucionários tomaram o prédio da TV estatal e anunciaram a derrubada dos Ceaușescu.

O casal foi conduzido a uma remota cidade no interior do país e no dia 25 de dezembro. Ambos foram julgados, condenados por genocídio e sumariamente executados. O ódio era tanto que eles foram mortos assim que saíram da sala de julgamento. A ordem era a de preservar o rosto do ditador, para que os romenos pudessem reconhecê-lo quando fosse mostrado pela televisão.

Sua esposa, Elena, não teve a mesma sorte e foi completamente desfigurada, pois o ódio dirigido a ela era ainda maior. Mas como? Porque ela, embora tivesse estudado apenas até os 14 anos de idade, durante o regime de seu marido, recebeu inúmeros títulos falsos, incluindo um de Doutora em Química com a maior das honras (summa cum laude). Ademais, ela se considerava a mãe dos romenos! Okay, senta lá, Elena!

Tudo isso pode ser visto, resumidamente, no seguinte vídeo (CENAS FORTES!):

Depois de ter visto tantos vídeos sobre esse momento histórico, um dos locais que mais queria conhecer em Bucareste era justamente a Piaţa Revoluţiei e posso dizer que fiquei completamente arrepiado ao poder observar o balcão de onde o Ceaușescu discursou pela última vez.

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Hoje a praça presta uma grande homenagem a todos os romenos e romenas que lutaram contra esse infeliz tirano e sua louca esposa.

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O ódio que persiste ainda é tão grande, que o temível sobrenome Ceaușescu não é mencionado em nenhum lugar, nem memsmo na placa cujo texto remete à Revolução.

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Na parte norte da praça situa-se o antigo prédio da Securitate, o qual foi parcialmente destruído após a derrubada dos Ceaușescu, e que agora é um prédio para lá de estranho onde funciona um café. Já na parte oeste, encontra-se a igreja Crețulescu.

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Por fim, ao lado do antigo prédio da Sicuritate, encontra-se a imponente Biblioteca Universitária Central de Bucareste.

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Confesso que nunca imaginei que minha visita a Bucareste pudesse render tantas histórias e provocar tantos sentimentos. Por isso mesmo sempre digo: saiam dos roteiros engessados, deixem de ser turistas e tornem-se viajantes!

Por fim, gostaria de deixar uma dica de filme sobre a Revolução de 1989 ocorrida na Romênia. É um filme cômico e trágico ao mesmo tempo, típico dos filmes dos Bálcãs! Espero que gostem!

Caros viajantes, por hoje é só!

Até a próxima!

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5 pensamentos sobre “Romênia – Bucareste – A Revolução que Derrubou Ceaușescu

  1. Eu fico feliz por te emocionar. Afinal são as emoções que fazem valer a pena, toda essa busca pelo conhecimento de culturas diferentes, mas inspiradoras. Eu posso te fazer um pedido? Será que teria como você fazer um post totalmente inspirado nas ‘pessoas’, que vivem na Romênia?, Ou seja, abordando a cultura deles, no dia a dia, aos seus olhos e ao seu tempo de estadia lá? Eu sou mineiro, e sinto que há muita semelhança entre o jeito romeno- no meu “ideário”- e o jeito mineiro de ser. Ontem, eu assisti online ao programa “vozes diplomáticas”, da UNB, que inclusive abordava a Romênia. O professor entrevistou a embaixadora do país, Diana Radu. Ela disse, em certo momento, que foi responsável pela tradução de diversas obras literárias brasileiras, para o romeno. Contou também, que muitas telenovelas brasileiras fazem sucesso lá. “A Escrava Isaura”, visivelmente adaptada da obra de Bernardo Guimarães, é o maior exemplo. Quero, por fim, parabenizá-lo pelo blog, que é muito interessante e esclarecedor. Abraço, Homero Ribeiro Neto.

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    • Caro Homero, eu estive sim em contato com romenos durente minha visita a Bucareste. Todavia, todos aqueles com os quais conversei eram da geração pós-Ceaucescu. Eles eram estudantes de teatro e, tanto pela formação, quanto pela idade, não tiveram contato direto com os anos de ferro e não representam esse espírito de renovação romena. Eles são já filhos da Romênia mais estável e da União Europeia. O que eles buscam é uma Romênia mais voltada ao futuro e menos inclinada ao passado. Eles não tem saudades dos anos comunistas, como muitos dos mais velhos podem ter. Eles têm outra perspectiva do próprio país e sonham com a abertura definitiva ao mercado europeu, assim como qualquer jovem de um país da “periferia” da União Europeia.

      Muito obrigado, mais uma vez, pelos comentários e um grande abraço!

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  2. Meu interesse pela Romênia é muito grande. Eu tenho apenas 17 anos e por enquanto não posso me tornar um “viajante”, mas espero que um dia eu possa saciar esse meu desejo… Toda a minha admiração por esse país surgiu, quando eu percebi que o povo romeno é muito guerreiro e raçudo, isso principalmente nos esportes- Sandra Izbasa, Catalina Ponor, Marian Dragulescu e outros- O sorriso no rosto, mesmo depois de alguma eventual derrota e a vontade de continuar lutando são grandes características romenas. Isso talvez, porque a própria história do país é muito sofrida. Inclusive o hino nacional de lá revela essas observações. O que eu sei sobre a Romênia me serve como inspiração. Os romenos estão superando esse passado obscuro, através da guarra que não lhes falta!

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    • Homero, meu caro futuro viajante! Confesso que fiquei realmente emocionado com o teu comentário! É para pessoas como você, apaixonadas por terras longínquas, por História e com real interesse de conhecer os lugares e (mais importante) as pessoas que neles vivem, que escrevo com o maior prazer neste blog.

      Receber um comentário como o teu me faz ter certeza que estou fazendo a coisa certa e que, através deste blog, conhecerei pessoas incríveis e admiráveis, como você. 11 anos nos separam cronologicamente, mas a paixão por descobrir, por conhecer, por explorar e por quebrar tabus e barreiras nos unem.

      Espero, sinceramente, que teu sonho de conhecer esse tão belo e único país se concretize! Saiba que pode contar comigo no que eu puder ajudar com dicas e conselhos, Quanto ao povo romeno, você está certíssimo. Trata-se de um povo que passou por inúmeras dificuldades, mas que sempre soube se reerguer, com bravura e dignidade.

      Meus parabéns por você ser um jovem que pensa “outiside the box” e espero que teu desejo de se tornar um viajante se realize! Estou na torcida por você!

      Muito obrigado pelo comentário e um grande abraço!

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  3. Pingback: Romênia – Bucareste – Onde o passado, o presente e o futuro se encontram | Viaje por Dois

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