Romênia – Bucareste – A Chegada e as Primeiras Impressões

Meus caros viajantes,

coloquem seus guias convencionais de viagem de lado e retornemos ao “lado B” da Europa!

O destino da vez é a capital da Romênia, Bucareste!

A Romênia é um país que sempre esteve presente no meu imaginário e era um sonho conhecê-la. Havia acompanhado sua participação nas Copas de 1994 e 1998 (a primeira delas, com o inesquecível Hagi), tinha ouvido falar da nota máxima obtida pela Comaneci nos Jogos Olímpicos de 1976 e conhecia muito bem as histórias do Vlad III, o Drácula.

Todavia, não foi nenhum desses personagens ou feitos que me motivaram a visitar esse país de maioria ortodoxa e cuja língua se origina no latim, assim como o italiano e o português.

Meu motivo era político e tinha um sobrenome: Ceaușescu. (Obviamente tinha um primeiro nome também: Nicolae)

Nicolae Ceaușescu ditou as regras na Romênia comunista durante 24 anos, de 1965 a 1989. Ele foi um dos mais brutais tiranos jamais vistos na Europa e seu braço direito era uma polícia secreta chamada Securitate.

Durante os 24 anos de seu regime de terror, Ceaușescu exterminou opositores, cultuou a si mesmo como um deus e conduziu seu “amado” país e seu “amado” povo a um estado de calamidade, através da falta de comida, de energia e de medicamentos, dentre outros.

Foi por causa dele que meu interesse sobre a Romênia nasceu e depois continuou a crescer. Não pensem porém que tal interesse tenha nascido e crescido pelo seu êxito em exterminar seu próprio povo. Muito pelo contrário.

Numa tarde ociosa, depois das aulas do ensino fundamental (ou médio, não me lembro ao certo), liguei no Discovery Channel e vi a seguinte cena, em um documentário:

(ATENÇÃO! CENAS POSSIVELMENTE FORTES PARA OS FRACOS DE CORAÇÃO!)

Exato! Meu interesse pela Romênia nasceu a partir do vídeo da execução de seu ditador, Nicolae Ceaușescu, e de sua execrável esposa, Elena. (Mais sobre eles nos próximos posts).

(Detalhe: a ordem era matar o Ceaușescu mas não desfigurá-lo, para que o povo pudesse ver que ele estava morto. A mesma ordem não foi dada quanto à execução de sua esposa, que foi completamente desfigurada, devido ao enorme ódio à sua pessoa).

Comecei então a buscar mais informações sobre o exótico país, mas em uma época sem Google ou Youtube, tudo era difícil.

Já em 2002, com uma TV a cabo que incluía mais canais, pude assistir, também por acaso, a um documentário chamado “Children Underground”.

Trata-se de um documentário sobre o dia-a-dia de crianças romenas abandonadas que dormem nas estações de metrô de Bucareste e que cheiram uma tinta chamada Aurolac (basicamente para evitar a sensação de fome), enquanto brigam entre si.

Segue o link para o documentário completo:

Pouco tempo depois, ganhei de aniversário um dos livros mais chatos dos quais ainda não me livrei e que continuam a entulhar meu quarto. Ele foi escrito pelo ex-presidente romeno, Ion Iliescu, e seu título é “Romênia: o renascimento da esperança”. Caso não tenha ficado claro, não o recomendo.

Como se não bastassem todas essas referências tão animadoras, na mesma época, viu-se proliferar na minha cidade (e em toda Grande São Paulo, acredito), uma série de mulheres de cabeças cobertas e de braços e pernas tortas que carregavam crianças no colo pedindo dinheiro. Do que elas eram chamadas? De romenas! Até hoje não sei a origem desse pessoal. Só sei que desapareceram assim como surgiram, do nada.

Finalmente, em primeiro de janeiro de 2007, a Romênia entrou para o seleto grupo da União Europeia! Que felicidade! A Romênia passava a ser um país europeu!

A realidade, porém, era outra. Os romenos continuaram sendo discriminados pelos demais europeus, por serem constantemente confundidos com os roma, ou seja, ciganos. Eles não tinham a menor chance de desfrutar do “sonho europeu” e eram simplesmente deportados, especialmente pela França.

Quatro anos depois, decidi aventurar-me por essas tão exóticas terras.

Antes de ir para Bucareste conheci Belgrado, capital da Sérvia, e estava triste por deixar essa cidade que havia visitado pela primeira vez e pela qual havia me apaixonado.

Peguei uma das duas camas de uma cabine leito de um trem que deixou Belgrado por volta das 13h e que só chegaria a Bucareste mais de 12 horas depois. O problema não é tanto a distância, mas o controle na entrada da Romênia, que agora era União Europeia. (A propósito, soube recentemente que essa linha não existe mais e nem sequer ônibus que façam esse trajeto).

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Na cabine, bem cômoda por sinal, já estava um romeno que ocuparia a outra cama. O trem partiu e conversamos um pouco, até que um telefonema mudou tudo. Não sei ao certo o porquê, mas depois de umas ligações e de falar com o chefe do vagão, ele foi embora. E lá estava eu, com a cabine toda para mim! Estando só, tranquei-me na cabine, já que esse trem tinha a fama de ser um dos mais perigosos, por conta da invasão de ciganos durante a noite.

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Como não tinha muito que fazer, atualizei meu diário de viagem enquanto escutava música. Fui interrompido pela polícia romena, que passou vasculhando as cabines e então pude dormir. Só acordei no dia seguinte, quando me serviram o café, a cerca de uma hora de distância do destino final, a estação Gara de Nord.

Pelo que tinha lido no guia Lonely Planet, deve-se estar muito atento nessa estação, pois ela é cheia de malandros, desde taxistas a ladrõezinhos mesmo, tentando se aproveitar de pessoas perdidas. Pegar um táxi em Bucareste, a propósito, é a maior chance de cair em uma roubada quando se visita a cidade. Não tive problemas, pois só andei no limpo e eficiente metrô, mas vi problemas acontecerem com outras pessoas, que tiveram que recorrer à polícia.

Troquei meus euros por lei e peguei o metrô lá mesmo, troquei de linha na estação seguinte, Piața Victoriei, Depois de apenas mais uma estação, já estava em Piața Romană, a poucos passos do meu albergue, Midland Youth Hostel 2. Tudo muito fácil e rápido.

O albergue é muito bem localizado, mas não o recomendaria a todos. Os banheiros são limpos, a cozinha é ampla, a área comum é agradável, a região é segura (ele se encontra na área de algumas embaixadas) e ele está próximo de restaurantes, mercados e alguns pontos turísticos.

A embaixada francesa está na frente do albergue e se você tirar foto dela a chance de se meter em confusão é grande! Eu sei disso porque presenciei policiais entrando no albergue para saber porque estavam tirando foto da embaixada. Só consegui tirar essa foto porque estava muito escondido. De qualquer forma, é interessante ver que um país que se rende assim que uma guerra começa seja tão neurótico com suas embaixadas.

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Os dois problemas que tive, foram: o quarto pequeno para acomodar 4 beliches e temperatura baixa da água dos chuveiros. O último foi culpa de o albergue estar com sua lotação máxima. Lá estava hospedado um grupo de uns vinte estudantes romenos de Cluj que acompanhavam o festival de teatro na capital.

O tempo que passei com eles foi muito agradável. Ficávamos no balcão tomando cerveja à noite e tentando analisar o quanto eu entendia de romeno e o quanto eles entendiam de italiano e de português. Por incrível que pareça, a comunicação funcionava.

Tudo ficou mais interessante quando conhecemos um argentino e duas francesas que também estavam no albergue. Foi assim que conseguimos reunir as principais línguas latinas em um balcão de um albergue em Bucareste! É por causa de experiências como essa que não abro mão de ficar em albergues.

Além de conhecê-los, fiz amizade com um estoniano, que depois me deu carona para o meu próximo destino, e encontrei um holandês já mais velho que não saia do Facebook e do Skype e que alternava sua vida entre Bucareste e Chişinău, capital da Moldávia. Eu ainda não sei o que ele fazia, mas tenho quase certeza de que era algo ilegal. Creio em tráfico, só não sei se de drogas, de mulheres ou de órgãos (ou dos três).

Em suma, tudo foi muito melhor do que eu imaginava que seria. A cidade era bem mais bonita e segura, o número de pedintes era pequeno e as pessoas eram simpáticas e prestativas.

Nos próximos posts escreverei sobre o que visitei na imponente capital romena.

Para celebrar nossa chegada a um novo destino, que tal uma música animada na qual os romenos falam um pouco sobre si mesmos?

Até breve!

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12 pensamentos sobre “Romênia – Bucareste – A Chegada e as Primeiras Impressões

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