Malá Pevnost Terezín – República Tcheca

“Hoje é para vocês, mas não tenham medo – afinal, é apenas Terezín!”

A citação acima está no livro “O Diário de Helga”. Helga Weiss, nascida em Praga, é a autora do diário e uma sobrevivente do holocausto. A frase se refere aos “transportes”, como eram chamadas as convocações de judeus a seguirem deportados para os campos de concentração.

E foi por conta desse livro (que li há alguns meses) que, na minha última viagem visitei a Pequena Fortaleza (Malá Pevnost) de Terezín. Na verdade, não havia incluído a cidade no roteiro. Meu irmão e eu estávamos em Praga e  continuaríamos a viagem para Berlin. Na última noite em Praga, foi ele quem se lembrou do livro e me perguntou: “Qual é mesmo o nome do campo de concentração daquele livro?” Durante uma viagem, são tantos os nomes de cidades e lugares por onde se passa (ou vai passar), que precisei recorrer ao bom e velho Google. “Terezín! Veja aí no GPS a que distância estamos.”  ” Mais ou menos 62km… e está no caminho para Berlin!”

O campo de concentração de Terezín (chamado Theresienstadt pelos alemães) é uma fortaleza construída por ordem do Imperador Joseph II, entre 1780 e 1790 e recebeu esse nome em homenagem a Maria Teresa da Áustria, mãe do Imperador.  Inicialmente projetada para ser uma cidade fortificada, tornou-se obsoleta para estratégias militares e, no século XIX, passou a ser utilizada como prisão militar e política.

E foi em 1914 que a Pequena Fortaleza recebeu seu prisioneiro mais famoso: Gavrilo Princip, que em junho do mesmo ano assassinou, em Sarajevo, o Arquiduque Franz Ferdinand e sua esposa Sofia, fato que fez eclodir a Primeira Guerra Mundial. Mas, esse é um assunto que deve ficar para alguma história do Nathan, que já visitou Sarajevo. (Atualização: Nathan conta essa história AQUI.)

Mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, a Gestapo tomou o controle da fortaleza em 1940, expulsou os moradores da cidade e a transformou num “gueto murado”. Os alemães queriam mostrar Terezín como um assentamento modelo, lugar de “judeus privilegiados”, artistas e músicos. Mas a fortaleza não passava de um campo de trabalhos forçados e “escala” para Auschwitz.

Em junho de 1944, os alemães, alertados da visita de comissários da Cruz Vermelha que investigavam denúncias sobre Terezín ser um campo de extermínio, trataram de embelezar o lugar. Tudo foi limpo, pintado, uma escola foi construída, foram programadas apresentações de teatro e concertos. Livraram-se da população excedente enviando milhares de pessoas a outros campos. Como bem relatado no Diário de Helga, o disfarce convenceu a Cruz Vermelha.

Com a iminência do fim da guerra, os alemães transferiram Terezín para a Cruz Vermelha em maio de 1945 e, dias depois, a fortaleza foi libertada por tropas russas.

Ilustração do Gueto de Theresienstadt, retirado de O Diário de Helga

Ilustração do Gueto de Theresienstadt, retirado de O Diário de Helga

Passaram por Terezín durante a Segunda Guerra 140.000 pessoas, sendo aproximadamente 15.000 crianças, das quais menos de 100 sobreviveram.

Muito basicamente, essa é a história de Terezín, cuja área do gueto e da Pequena Fortaleza foi transformada em memorial pelo governo da então Tchecoslováquia.

O Memorial é composto não apenas pela pequena fortaleza, mas por outros monumentos, cemitérios e o Museu do Gueto.  Informações sobre todos os locais de visitação podem ser vistos no site do Memorial.

Cemitério Nacional, ao lado da entrada da fortaleza

Cemitério Nacional, ao lado da entrada da fortaleza

Vista aérea da área do gueto de Terezín

Vista aérea da área do gueto de Terezín

Mapa de Theresienstadt, com a Pequena Fortaleza à esquerda

Mapa de Theresienstadt, com a Pequena Fortaleza à esquerda

Como a visita não estava programada, eu só tinha tempo para conhecer a pequena fortaleza, que está bem conservada e, como a grande maioria dos campos de concentração, tem na entrada a cínica inscrição em alemão “Arbeit Macht Frei” (o trabalho liberta).

A foto abaixo mostra uma placa, localizada no grupo de celas do pátio do bloco A, instalada pela Embaixada de Israel e dedicada aos 1.500 judeus mortos na pequena fortaleza, que tiveram um destino pior do que os outros grupos de prisioneiros: foram torturados até à morte ou foram enviados a outros campos de concentração.

Também estão preservadas as beliches coletivas usadas pelos prisioneiros.

  

Os alojamentos mencionados por Helga Weiss em seu livro estão na área do Gueto e lá também é possível ver as beliches.

Foto disponível em: http://www.pamatnik-terezin.cz/en/photogallery/magdeburg-barracks?lang=en

Foto disponível no site do Memorial

“À noite, algumas pessoas se deitam no meio do quarto e, se alguém precisa sair, tem que pular todas elas. Os pés batem nos rostos, é realmente horrível. Algo que só dá para acreditar vendo e, um dia, teremos dificuldade em acreditar que pessoas pudessem viver em tais condições.” (Helga Weiss, em seu diário)

Há normalmente uma diferenciação entre os campos de trabalho forçado e os campos de extermínio. Pensa-se que somente nestes últimos os prisioneiros eram assassinados, o que não corresponde à verdade.

Em Terezín um túnel de aproximadamente 500 metros de extensão, era usado para conduzir os prisioneiros ao local onde seriam executados.

As fotos abaixo mostram as celas solitárias, que são extremamente pequenas.

  

A sensação ao visitar um campo de concentração (ou de trabalhos forçados, chamem como quiserem) é controversa. Ao mesmo tempo em que traz à memória as cenas dos inúmeros filmes que trataram do holocausto, o que se vê hoje é um lugar organizado, limpo, o que acaba dificultando um pouco a compreensão do horror que se passou nesses lugares.

Em duas horas é possível fazer a visita à fortaleza. A entrada custa 170CZK (Coroas Tchecas. A República Tcheca integra a Comunidade Europeia, mas não faz parte da Zona do Euro), que correspondem a aproximadamente 7€. E achei curioso o aviso da taxa de 50CZK para fotografar e filmar que, apesar da minha câmera estar bem visível quando comprei a entrada, não me cobraram. O valor para visitar o Museu do Gueto é o mesmo.

Nessa viagem ainda visitei um outro campo de concentração (escreverei sobre ele numa próxima postagem) e deixo aqui uma pergunta: de tudo que se sabe hoje sobre o holocausto e sobre a resistência aos estrangeiros em alguns países europeus, é possível ocorrer algo semelhante? Para ajudar a refletir, fica como sugestão a leitura da matéria veiculada pela Deutsche Welle há pouco mais de uma semana: Brasileiro candidato a deputado é alvo de campanha neonazista na Alemanha

Se você já esteve em algum campo de concentração, deixe um comentário, conte sua experiência.

Quem não esteve, também pode comentar !!

Até à próxima!

P.S.: as fotos podem ser vistas em tamanho original; clique em cada uma

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6 pensamentos sobre “Malá Pevnost Terezín – República Tcheca

  1. Monika, desde muito jovem, me interessei sobre assuntos referentes ao Holocausto. Li vários livros e assisti alguns filmes, sobre o Nazismo. Atualmente estou lendo : A bibliotecária de Auschwitz, o que me levou a pesquisar na internet, sobre o gueto de Terezin. Em 2013, fiz uma viagem ao Leste Europeu e na Polônia, visitei o Campo de Concentração Auschwitz. Fiquei muito chocada com o que vi, apesar da “maquiagem” que foi feita neste campo, para visitação de turistas. É muito triste ver o que o ser humano é capaz de fazer com o próprio semelhante. Caso eu volte à Praga, visitarei Terezín, com certeza!
    Tusnelda Maria Araújo dos Santos

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    • Olá Tusnelda!
      Eu também me interesso muito pelo assunto. Ainda não li A bibliotecária de Auschwitz, mas está na minha lista.
      Quanto à “maquiagem” nos campos, acho que diminui o impacto, mas ainda assim é chocante imaginar tudo o que se passou nesses lugares
      Muito obrigada pela visita ao blog e pelo comentário.
      Abraços.

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  2. Pingback: Sarajevo, Bósnia e Herzegovina – 100 anos do disparo que mudou a História | Viaje por Dois

  3. Monika, gostei muito da postagem! Muito interessante as questões que vc. colocou: 1. é de fato muito difícil hoje entender o que REALMENTE foram esses lugares com todos seus terrores; talvez eles até “surpreendam” pela arquitetura lógica, pela limpeza, organização e todo preparo para receber os visitantes; mas é difícil captar todo o horror que significaram. Em todo caso acho válido que sejam memoriais e estejam abertos à visitação, pois sempre levam à uma reflexão. 2. quanto a existir de novo: como já comentamos, acho que é sempre possível, porque infelizmente não se aprende com os erros da história, isso não só na Europa, mas em outros locais mais distantes de nossa vida ocidental e dos holofotes da mídia internacional, África, Oriente médio, confins da Ásia… Enfim, o preconceito é um mau que ronda a história da humanidade, e parece estar longe de ser extirpado.

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  4. Gostei muito da postagem!!! Tb visitei um campo de trabalho forçado em Berlin, lá não tinha mtas coisas da época, mas concordo com você Monika, uma coisa são os campos como eles existem agora para os turistas conhecerem e outra completamente diferente é a realidade que foi vivida por mtos nesses campos. Acho que por mais filmes e livros, é inimaginável o sofrimento que existiu nesses lugares.

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    • Aline, aparentemente os campos próximos a Berlin estão mesmo menos preservados.
      E, você tem razão! O que essas pessoas passaram é inimaginável. Não dá pra ter a dimensão do que era vida (ou a sobrevida) num campo.

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