Lefkoşa – A chegada na parte turca da capital do Chipre

Caros seguidores, estou de volta para continuar o relato da minha saga pela incrível ilha do Chipre. Da última vez havia narrado o momento da minha chegada a Nicósia e o encontro com meu amigo Zafer, já do lado turco dessa capital dividida. Lembram-se que eu disse que ele tinha uma “surpresa” para mim? A surpresa é que ele estava de mudança naquela noite.

Tudo bem que não era uma notícia tão inesperada, pois ele me havia dito que estava mudando de casa, mas que estava tudo encaminhado. Ele dividia o apartamento com mais alguém e agora ele iria morar sozinho.

Fomos então o Zafer, minha mala e eu pelas ruas da parte turca e ela é mesmo completamente diferente do pouco que havia visto da parte grega. Era mais escura, com menos gente e um pouco mais difícil de se orientar.

A sede do Governo da República Turca do Norte do Chipre

A sede do Governo da República Turca do Norte do Chipre

Estávamos andando, não chegávamos nunca e o lugar por onde passávamos estava cada vez mais parecido com um gueto e, pelo que ele me disse, era mesmo um gueto. Foi lá onde ele encontrou uma pessoa que fazia o bico de transporte de mudanças. Quando vi a caminhonete vazia eu comecei a me preocupar. Achei que tudo já estaria lá e que iriamos direto para a casa dele, mas não.

Fomos na caminhonete pela parte turca até chegar em uma espécie de sede de alguma coisa. O Zafer disse para eu esperar (nem poderia fazer outra coisa) e voltou com colchonetes, lençóis e outras coisas. Seguimos então até o prédio onde ele morava. Havia, na garagem, dois sofás, uma cama de armar e outros móveis. Só que isso não era tudo. Ele ainda tinha que tirar mais coisas do apartamento. Foi quando eu percebi que nada da mudança tinha sido feito!

O Zafer me disse para esperar lá na garagem com o dono da caminhonete e eu o fiz até constatar que as coisas que ele trazia não acabavam (os tapetes grandes ele não trouxe, mas os jogou pela janela para que caíssem na garagem, para espanto dos vizinhos que desceram para ver o que se passava).

Trouxemos do segundo andar, pelas escadas, quadros, mochilas, livros, sacolas, instrumentos musicais, escrivaninha, cadeira, nargile e tudo que se possa imaginar. Finda essa tarefa, era hora de colocar tudo na caminhonete, o que foi praticamente um jogo de tetris para mim e os turcos. Era muita coisa para uma caminhonete com caçamba relativamente pequena. Milagrosamente, tudo coube.

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Chegamos à nova casa dele e começamos a tirar tudo da caminhonete. Quando tudo estava já dentro da casa, era hora de arrumar. Ele foi começando por coisas pequenas e eu, que tenho um leve transtorno obsessivo-compulsivo no que diz respeito à organização, assumi o comando do negócio porque senão tudo demoraria muito mais tempo e já era tarde e eu estava com fome. Em uma hora organizamos o básico e saímos à procura de um lugar para comer.

Fomos andando por uma rodovia que passava do lado da casa dele até chegarmos a um “restaurante/lanchonete/lugar onde é servida comida”. Não havia cardápio e etc., mas você decidia o que iria comer olhando a comida que estava exposta. Eu não tinha a menor ideia do que era aquilo tudo, mas o Zafer pediu algumas coisas, que no final acabaram sobrando, dada a quantidade que foi servida. Não posso reclamar da comida e muito menos do atendimento.

Foi uma boa oportunidade para conversarmos. Eu o conheci pelo Couchsurfing, que é uma rede através da qual você pode ser recebido por viajantes e/ou recebê-los, sejam estrangeiros ou nacionais. Pode-se também só combinar de sair para conversar, tomar alguma coisa, comer, mostrar os pontos mais importantes e tudo mais. Nem preciso dizer que é a melhor forma de conhecer os locais, seus países e suas cidades, através de seus pontos de vista. Não existe cobrança, mas cordialidade e respeito são esperados (e eu sempre levo uma lembrança daqui). Ademais, a troca de experiências e o aprendizado são de um valor inestimável.

No jantar e durante toda a estadia aprendi muito sobre a divisão do Chipre, sobre os turcos, sobre a atual situação política, econômica e social da Turquia, sobre os muçulmanos e a fé Bahá’i, da qual ele faz parte. Trocamos muitas informações e ideias sobre diplomacia e política internacional, já que ele cursa Relações Internacionais na universidade Yakın Doğu (foi esse o principal motivo pelo qual o escolhi para pedir hospedagem).

O Zafer é totalmente multicultural, desde sua origem. Ele é turco, mas também tem ancestrais armênios, vejam só! Viaja bastante, conhece gente em vários países e adora saber sobre qualquer lugar do mundo. Sem contar que ele também é colecionador de bandeiras! A experiência foi incrível!

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Depois de jantar, voltamos à sua casa para dormir e eu tinha um quarto só para mim, com uma cama de armar que era muito mais confortável do que parecia e finalmente descansei, para poder explorar a cidade no dia seguinte.

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No dia seguinte, acordei um pouco mais cedo do que o Zafer. Atualizei meu diário de viagens e, antes de pegar o ônibus para o centro da cidade, fomos fazer algumas compras para a nova casa. Primeiramente, precisávamos de comida. Fomos a um supermercado e eu, empolgado com toda a experiência de estar em um país diferente de todos os demais, decidi filmar o mercado, enquanto narrava a minha experiência até então.

Estava tudo normal, até que uma mulher começou a gritar, em turco, atrás de mim. Deduzi que não podia filmar o supermercado, o que o Zafer me confirmou. Ele também ficou surpreso, mas disse que a moça fez isso por causa das marcas dos produtos no mercado. Pelo que entendi, elas são cópias das ocidentais e eles não querem que isso vaze…difícil de acreditar que isso nunca aconteceu.

Compramos comida e artigos para a casa e, como já morei sozinho, fui lembrando de vários dos quais o Zafer já estava esquecendo. Depois compramos, em outra loja, mais artigos para a casa e, esperando o Zafer do lado de fora, vi ao longe uma das coisas que mais queria ver na parte turca da capital: as famosas bandeiras pintadas nas montanhas. A da esquerda é a da Turquia e a outra é a da República Turca do Norte do Chipre.

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A foto ficou ruim porque já não sabia o que podia ou não registrar, então tirei essa foto da forma mais discreta possível. Elas são, na verdade, uma grande provocação aos gregos que estão do outro lado do muro que divide a capital. Para que a provocação não cesse durante a noite, quando elas não podem ser vistas, eles colocaram uma iluminação especial nelas.

Deixamos tudo na casa dele, tomamos o café da manhã e pegamos o ônibus para sua Universidade. O mais interessante é que fomos conversando sobre “países que não existem”, mas que se declararam independentes, como a Abkhazia, a Ossétia do Sul, a Transnístria, a Somaliland e a própria República Turca do Norte do Chipre, na qual estávamos. Para um estudioso das Relações Internacionais, estar em um desses lugares, é inacreditável!

Chegando lá ele foi para a aula e eu segui com uma conhecida dele até o centro. A conhecida dele não era muito fluente no inglês, mas fez questão de informar a todos do ônibus que eu era estrangeiro e logo virei centro das atenções, o que não me deixou apenas vermelho, mas roxo de vergonha. Pelo menos cheguei ao centro.

Sei que já escrevi muito por hoje então pararei por aqui e, no próximo post, escreverei sobre a parte turca da capital do Chipre.

Muito obrigado a todos que nos acompanham! Até a próxima!

P.S.: caríssima Monika Tognollo, ótima viagem para a senhorita! Traga muitas histórias para nós! Un bacione!

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Um pensamento sobre “Lefkoşa – A chegada na parte turca da capital do Chipre

  1. Pingback: Chipre – Lefkoşa/Nicosia – O “tráfico” de fast-food e outras experiências. | Viaje por Dois

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