Chipre – Nicósia – A última capital dividida.

Caros seguidores, estou de volta para continuar a história sobre a tentativa de embarcar no ônibus, de Larnaka para Nicósia, a capital do Chipre, e tenho certeza que estão curiosos sobre como tudo se passou!

Depois de toda a confusão de entra ou não entra, coloca a mala no bagageiro ou não coloca a mala no bagageiro, finalmente embarquei!

Fui o penúltimo a conseguir embarcar e logo encontrei um assento lá no fundo do ônibus, embora fosse do lado de três “mulheres” um pouco peculiares (se é que vocês me entendem) que pareciam indianas. Antes mesmo que o ônibus partisse, acabei mudando de lugar a pedido de um garoto que queria se sentar mais perto da namorada, que não era uma das três indianas.

Partimos com atraso e o trânsito na saída da cidade não era dos mais tranquilos, talvez porque fosse domingo e, como havia dito, muita gente da capital aproveita para passar esse dia no litoral. Estava preocupado com o horário, pois meu amigo Zafer me esperaria do lado turco da capital e não queria perturbá-lo.

Por volta das 19h30 desembarquei no pequeno ponto de ônibus de Nicósia. Sem nenhum mapa na mão, restava-me perguntar aos transeuntes como se fazia para chegar à Rua Ledra, a única onde a passagem da parte turca para a grega, e vice-versa, é possível.

Estava um pouco tenso depois de ter lido muitas informações desencontradas sobre a passagem do lado grego para o turco, desde horários de abertura da “fronteira” até a lista da nacionalidade dos que podem atravessá-la.

Cheguei à Rua Ledra, o coração da parte grega de Nicósia, e vi famílias passeando, crianças com balões, comerciantes vendendo algodão-doce e brinquedos dos mais variados, decorações de Natal, enfim, muita festa e um clima muito agradável. A única coisa que destoava disso tudo era o barulho da minha mala sendo puxada… Demorava tanto para chegar ao temido “check point” entre os dois lados que pensei estar perdido.

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Foi então que, finalmente, cheguei a uma parte da Rua Ledra onde a festa diminuía de intensidade, bem como as luzes de Natal e o clima de festa. Estava diante de mim o tal “check point”, uma temível barreira erguida por turcos e gregos e vigiada pela ONU. Uma barreira que faz com que Nicósia, para os gregos, e Lefkoşa, para os turcos, seja a última capital dividida no nosso planeta, como se pode ler em uma placa posta do lado grego da “fronteira”.

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Antes de continuar a história, vamos a alguns fatos históricos para explicar o que se passou não só na capital do Chipre, mas em todo o país, para que a situação chegasse a esse ponto.

Existem traços da presença humana no Chipre que remontam a 10.000 antes de Cristo! Por esse motivo, vale a pena dar uma reduzida no que aconteceu durante esse período: os gregos chegaram por volta de 1.400 a.C. e, segundo a mitologia grega, Afrodite (aquela que sai nua da concha) e Adônis nasceram lá. Depois vieram os assírios, os persas, voltaram os gregos e depois os romanos conquistaram a ilha.

Na divisão do Império Romano eles ficaram na parte Bizantina, os árabes atacaram, templários ingleses conquistaram a ilha e em seguida foi a vez dos venezianos, que construíram as belas fortificações ao redor da cidade de Nicósia. Por fim, tudo foi tomado pelos otomanos.

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Ainda que tantos povos tenham passado por lá, a maioria de seus habitantes continuava vinculada, cultural e religiosamente, aos gregos. Por isso, o sonho desses habitantes era o de se unir à recém-independente Grécia, enquanto outros tantos que se consideravam turcos não o queriam. Já estamos no século XIX!

Foi então a vez dos britânicos conquistarem a ilha, em 1925, depois de terem ludibriado os gregos dizendo que a ilha seria deles se eles os ajudassem nas duas grandes guerras. Os gregos, diante da falsa promessa, e já meio irritados, declararam-se independentes e, logo após, realizaram um referendo sobre a unificação da ilha à Grécia e ganharam, mas os turcos se abstiveram de votar.

Eis que começa a violência de ambos os lados. Os gregos dão um golpe de Estado e, por fim, os turcos invadem militarmente a porção norte da ilha. Pessoas são deportadas de um lado para o outro, para que só gregos fiquem na parte grega e só turcos residam na parte turca. É nesse momento em que a República Turca do Norte do Chipre declara-se independente e não obtém o reconhecimento de nenhum país, a não ser da própria Turquia.

O país inteiro é dividido e, entre gregos e turcos, estão as tropas Nações Unidas, no controle da “buffer zone” (“zona tampão”). Antes que me esqueça, existem também duas bases militares britânicas na ilha, e a União Europeia, quando admitiu o Chipre entre seus membros, considerou que a ilha era unida, embora a divisão persista. Alguém me explica isso?

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Doze mil e doze anos depois, estava eu no que agora é a “fronteira” do Chipre (um país de gregos ortodoxos que faz parte da União Europeia) e a República Turca do Norte do Chipre (um “país” que não conta com reconhecimento internacional e que é habitado por turcos muçulmanos).

Segui pelo lado esquerdo da divisória dos postos de controle, dei meu passaporte, preenchi uma folha, nela foi carimbado meu visto de entrada na República Turca do Norte do Chipre e então eu poderia entrar no “país”. Sério mesmo?! Depois de tanta apreensão, era só isso?! Ainda não sei se é assim para todos ou só para os portadores de passaporte europeu. A quem interessar fazer a travessia, recomendo buscar maiores informações.

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Do outro lado da “fronteira” estava meu amigo Zafer, nascido na Turquia, e agora residente de Lefkoşa, para cursar a graduação em Relações Internacionais. Foi muito bom encontrá-lo depois de tantas conversas no Couchsurfing, onde o conheci.

O alívio por ter passado por tudo isso sem nenhum problema era grande, mas meu amigo Zafer ainda teria uma “surpresa” para mim. Todavia, para que esse post não fique tão longo e cansativo, deixo a “surpresa” e minhas impressões sobre Nicósia/Lefkoşa para o próximo post!

Um grande abraço aos seguidores e espero pela vossa companhia em breve!

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Um pensamento sobre “Chipre – Nicósia – A última capital dividida.

  1. Pingback: Lefkoşa – A chegada na parte turca da capital do Chipre | Viaje por Dois

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